Faz uns dias que não apareço para escrever livremente durante minutos sobre tudo que se passa dentro de mim. Quando estou bem não sinto tanta angustia nem tanta necessidade de organizar os pensamentos. Mas isso vai e volta. As vezes quando estou bem, vou ficando ótima e depois incrível e de uma hora para a outra estou pronta para construir foguetes que deixariam Elon Musk incrédulo ou aprender em 30 minutos a tocar violão e comprar uma câmera fotográfica profissional para largar tecnologia. Ontem fui a uma psiquiatra. Contei da forma mais estruturada possível como meus dias funcionam e tudo que acontece dentro de mim. Nunca fui em busca de saber o que se passava dentro de mim, mas nos últimos meses tem sido cada vez mais difícil. Ora se não é irônico que fique mais difícil quando a minha vida está mais organizada e não tenha ficado assim quando estava na adolescência ou no início da vida adulta. Mas parece que pouco importa pois a mente da gente tem seus desejos e formas e a gente meio que acha que a mente vive dentro da gente mas é a gente que vive dentro dela. Bom, falamos muito, rimos muito e ao que tudo indica eu sofro de transtorno afetivo bipolar tipo 2 que pode coexistir com uma depressão e um TDAH. De repente tudo pareceu complexo de uma hora pra outra e fiquei pensando se realmente as coisas fazem sentido pois é muito fácil se questionar se é invenção da cabeça quando a gente está bem e se sentindo eufórica. Bom, mas como sei que minha mente faz armadilhas pra mim, logo penso que essa pode ser outra então estou tentando avaliar friamente se devo ou não tomar lítio, que é o remédio que ela me receitou. Digo que estou avaliando pois parece que isso é algo que deveria me acompanhar para sempre e nem sei se meu sempre é muito longo ou se gostaria de me comprometer com algo tão extenso. Também não sei se vou gostar de como serei se tomar remédio. Será que vou perder meu impulso de ler 100 livros no ano? Será que serei capaz de passar horas pesquisando sobre a história perdida da fábrica textil da vila de Biribiri? Será que ainda vou querer conhecer sobre todas as marcas de quebra cabeça e fazer timelapse de todos que eu montar? Será que ainda vou me sentir capaz de dirigir por 18 horas em um fim de semana apenas para abraçar alguém que gosto e voltar satisfeita? Como serei eu se não for intensa? Aparentemente não é certo ser assim, mas não quer dizer que eu não goste, afinal sou assim até hoje. Ainda tenho muitas dúvidas.
Resolvi marcar uma médica psiquiatra. Entendi que se as coisas estão como estão e me causam sofrimento, talvez exista uma forma de minimizar isso e eu me sentir um pouco mais estável. Hoje estou vendo as coisas com um pouco mais de clareza, não me sinto 100% sem energia nem derrotada a ponto de não conseguir me levantar. Comecei então a me dedicar a reunir as informações para ter uma boa conversa com essa médica. Sei que ao longo da minha adolescência estive várias vezes em psiquiatras e neurologistas, sei que fiz um tratamento a base de remédios e que fiz 6 ou 7 anos de terapia. Perguntei para a minha mãe, ela não se lembra de nada disso. A minha mãe teve depressão durante grande parte da minha infância e adolescência, então parte da minha história se perdeu. Não sei se posso confiar nas minhas memórias, na forma como lembro os acontecidos.